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Política externa de Biden não deverá ser tão diferente da de Trump

As relações dos Estados Unidos devem mudar com a China, porém não com a Venezuela

quinta-feira, 26/11/2020

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – A vitória de Joe Biden recolocará os Estados Unidos no caminho de um multilateralismo benigno, e o conflito central do século 21, entre Washington e Pequim, será resolvido entre brindes festivos do democrata com Xi Jinping.

A imagem, um chiste exagerado, ronda a mente dos entusiasmados com a saída do belicoso e incongruente Donald Trump da Casa Branca, sacramentada nas urnas neste sábado (7). Mas parece bastante longe da realidade.

Existe um inventário de abacaxis para serem descascados por Biden a partir de sua posse, em 20 de janeiro. É consenso entre analistas que o tom geral será mais cordato e que, de fato, a busca por soluções de consenso deverá predominar.

A volta à mesa de aliados na Europa e o incentivo a organismos multilaterais são praticamente uma certeza, especialmente no contexto da pandemia da Covid-19 e do desgaste da aliança transatlântica contra a Rússia.

Isso naturalmente desconta os prováveis testes de estresse que a gestão democrata enfrentará. Da Guerra da Coreia ao 11 de Setembro, eventos externos independentes dos desígnios do presidente costumam moldar a ação Washington no exterior.

A seguir, alguns dos mais espinhosos frutos geopolíticos à espera de Biden, que construiu fama de conciliador e pragmático enquanto foi vice-presidente do efusivo Barack Obama, de 2009 a 2017.

China e Guerra Fria 2.0

Trump deverá ser lembrado, no campo externo, como o presidente que escancarou o mal estar de setores da sociedade americana com o que era visto como uma vantagem indevida dada aos chineses desde que Richard Nixon aproximou os dois países nos anos 1970.

A leitura é distorcida, claro, dado que ambos os lados lucraram com as vantagens econômicas de suas parcerias, na forma de integração de cadeias produtivas e investimentos diretos.

Seja como for, Trump elevou a crescente competição econômica e política, estimulada pela ascensão de Xi como um líder personalista na China. O caráter comercial exacerbou-se pela guerra tarifária, ora congelada, e principalmente pela disputa no campo da tecnologia de comunicação 5G.

A dita internet das coisas é vista como o ativo estratégico mais vistoso das nações para as próximas duas décadas. Trump vinha sendo bem sucedido em obstruir a gigante chinesa Huawei em mercados ocidentais, e nada indica que Biden mudará esse curso.

Também não se espera que o democrata passará a aceitar a repressão em Hong Kong ou a militarização do mar do Sul da China como normais. Críticas a esses itens, que só perdem em sensibilidade em Pequim para a questão do reconhecimento de Taiwan, acelerado por Trump, deverão continuar.

O que deverá mudar é a beligerância da Guerra Fria 2.0 do republicano, que importou retórica da primeira versão desse embate, contra os soviéticos, para tachar a China como um império do mal –como diria Ronald Reagan nos anos 1980.

A Rússia de Putin Donald Trump passou seu turbulento mandato com a sombra da acusação de que recebera ajuda de hackers russos a mando de Vladimir Putin em 2016. Inúmeras teorias conspiratórias surgiram disso, a principal transformando o americano numa espécie de teleguiado do czar do século 21.

Na prática, a relação entre Washington e Moscou deteriorou-se perigosamente sob Trump, ainda que seja verdade que foi dada uma mão livre para Putin ocupar espaços em locais como o Oriente Médio.

Até aí, nenhuma novidade: foi a lassidão do ex-chefe de Biden, Obama, que permitiu a ocupação do vácuo americano na Síria, por exemplo.

Mas o americano deixou dois importantes acordos de limitação de armas nucleares com os russos, e o último remanescente, o Novo Start, irá caducar duas semanas após a posse de Biden. Ele já sinalizou que quer estendê-lo, no que foi cumprimentado por Putin, que fez questão de lembrar que a tradição dos democratas é serem mais linha-dura com o Kremlin.

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Se partirem de um denominador nesse setor, talvez os dois países possam retomar algum nível civilizado de conversa. Os rolos do filho de Biden na Ucrânia, país sempre sob a mira geopolítica russa, podem atrapalhar algo, contudo.

Por outro lado, Putin não dispensaria ajuda para pressionar a Turquia, país da Otan (aliança militar ocidental) que estimula a guerra em curso em Nagorno-Karabakh ao lado do Azerbaijão, a restringir suas aventuras militares expansionistas –Recep Tayyip Erdogan está envolvido da Líbia ao Cáucaso.

Irã e Oriente Médio Aqui, Biden estará numa bola dividida. Obama foi o patrocinador do acordo nuclear que visava evitar Teerã de adquirir a bomba, em 2015, que foi abandonado três anos depois por Trump.

É possível argumentar que o acordo de fato só dava tempo aos aiatolás, mas o fato é que o americano empurrou o conflito com o país persa quase a uma guerra, no começo deste ano, ao matar no Iraque o principal general iraniano.

Assim, Biden poderá tentar retomar a via diplomática com Teerã. Se o fizer, contudo, terá um problema para enfrentar: um dos únicos legados positivos de Trump na política externa, a paz entre Israel e países árabes.

A qualificação desses acordos, claro, é relativa: se é boa para a paz mundial, foi feita às expensas do povo palestino, que foi rifado na sua disputa com Israel pelas monarquias do Golfo que estão se aconchegando com Tel Aviv em uma grande aliança regional contra o Irã.

Lidar com o passado pacifista dos democratas, que remonta ao inaugural acordo patrocinado por Jimmy Carter entre Israel e Egito em 1979 e passa pelo famoso e hoje inócuo aperto de mão entre Yitzhak Rabin e Iasser Arafat sob o sorriso de Bill Clinton em 1994, e as realidades de 2020 serão um desafio para Biden.

Coreia do Norte e a bomba Quando deixou o cargo, a lista de lavanderia de Obama para Trump tinha Kim Jong-un no topo. O ditador norte-coreano cumpriu o esperado e colocou o republicano na parede, com um sem-número de testes de mísseis ameaçadores para os EUA. Até uma nova bomba atômica explodiu em teste.

O problema segue inconcluso, após Trump fingir que tinha dobrado o “pequeno homem-foguete” com uma série de “photo-opportunities” tão inéditas quanto dissimuladas.

Claro, símbolos são importantes na política internacional, e Trump logrou avançar uma relação até então inexistente, mas na prática a situação na península coreana é tão perigosa quanto era no momento em que o republicano assumiu.

Os democratas têm em sua conta a enrolação do pai de Kim em cima de Clinton, que permitiu ao país ganhar tempo e construir a bomba, nos anos 1990. Novamente, Biden terá de equilibrar seu DNA político com “realpolitik” da mais crua.

O quintal da América Latina Trump buscou acentuar uma política intervencionista por meio de prepostos, no caso os aliados Brasil e Colômbia, na América Latina. A depender do presidente, teria havido uma ação militar desses vizinhos contra aquela que é percebido como o principal problema hoje na região para Washington, a ditadura de Nicolás Maduro na Venezuela.

Caracas seguirá sendo uma adversária, mas Biden já disse publicamente ser contra a ideia de mudança forçada de regime.
Ainda é incógnita a relação com Jair Bolsonaro, mas o peso regional do Brasil o torna um parceiro incontornável, em especial para evitar a ocupação de espaços pela China e, em menor escala e só na Venezuela, pela Rússia.

Recentemente, Trump rompeu uma tradição de décadas e conquistou para si a presidência do Banco Interamericano de Desenolvimento, que investiu US$ 12,9 bilhões (R$ 70 bilhões) na região no ano passado. A manobra foi duramente criticada, em especial pelo México de López Obrador, e Biden terá um problema ali a resolver.

O vizinho diretamente ao sul dos EUA segue também como parte do destino americano, e Biden já disse que reveria a política agressiva anti-imigração de Trump. Há, claro, a questão perene de Cuba, e é previsível que o democrata retome o caminho de Obama, de normalização de laços.

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