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Países têm que se antecipar na defesa da vacina, diz chefe de aliança global

O epidemiologista americano Seth Berkley disse que não se deve deixar espaço livre para os "antivaxxers"

quinta-feira, 03/12/2020

BRUXELAS, BÉLGICA (FOLHAPRESS) – Governos e entidades devem se antecipar na defesa da vacinação contra Covid-19 e não deixar espaço livre para os “antivaxxers” -os que são contra vacinas-, afirma o principal executivo da aliança global por vacinação Gavi, o epidemiologista americano Seth Berkley, 64.

“É muito importante que sejamos proativos. É muito melhor construir compreensão e confiança desde o início em vez de esperar que o boato se espalhe para depois combatê-lo”, afirmou ele em entrevista à reportagem.

Berkley diz que a aceitação da vacina é especialmente importante nesta pandemia de coronavírus porque ela é a melhor esperança para encerrar a fase mais aguda de contágio.

“Se quisermos superar esta pandemia, precisamos de vacinação generalizada. Sem uma ampla aceitação dessa solução, salvar vidas e retornar à normalidade se tornará ainda mais difícil”, diz o executivo. Ele espera que as primeiras vacinas comecem a ser aprovadas pelas agências regulatórias em meados de 2021.

Em alguns países, como Reino Unido e Alemanha, manifestantes contra a vacina se juntaram a protestos mais amplos nos últimos meses contra medidas de restrição de mobilidade e isolamento físico.

No Brasil, a adesão à vacinação contra a Covid-19 caiu em quatro grandes capitais brasileiras, como mostrou pesquisa Datafolha realizada em 3 e 4 de novembro com eleitores de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Recife. O apoio à imunização obrigatória também registrou queda nesses locais.

A taxa de recifenses que pretendem se vacinar caiu de 75% para 65% agora em novembro. No mesmo período, subiu de 20% para 30% a parcela dos que não pretendem tomar a vacina. Tanto São Paulo (72%), quanto Belo Horizonte (74%) e Rio de Janeiro (73%) viram a taxa de adesão à vacinação recuar 7 pontos percentuais neste último mês. Enquanto isso, as taxas de recusa para a imunização alcançaram 23%, 21% e 24%, respectivamente.

Uma das estratégias da Gavi para combater a desinformação, segundo ele, é trabalhar em parceria com governos e agências internacionais, como o Unicef (fundo da ONU para a infância) para engajar líderes comunitários e religiosos.

A Gavi, criada pelo casal Bill e Melinda Gates para aumentar a oferta de imunizantes nos países mais pobres, montou uma força-tarefa específica para combater o coronavírus, a Covax, da qual participam também a OMS e o Cepi (coalizão contra epidemias formada por organizações públicas, privadas, filantrópicas e da sociedade civil).

O objetivo da Covax é impulsionar a pesquisa e o desenvolvimento do maior número possível de vacinas para acelerar a descoberta de um produto viável. Multiplicar as opções é fundamental porque menos de 10% dos projetos conseguem passar do estágio pré-clínico e, dos que chegam aos testes em humanos, só 20% se tornam viáveis, segundo dados históricos.

Atualmente existem mais de 200 vacinas candidatas em desenvolvimento, e 11 das candidatas estão no último estágio de teste de eficácia -como a da Pfizer, que nesta segunda anunciou de 90% de eficiência em resultados preliminares.

O governo brasileiro já possui ao menos dois acordos prévios para obtenção de 140 milhões de doses de vacinas contra Covid-19 após a conclusão de testes. Destas, 100 milhões viriam de uma parceria da Fiocruz com a Astrazeneca e Universidade de Oxford e 40 milhões por meio da Covax Facility.

“As baixas chances de sucesso para as vacinas candidatas tornam ainda mais crítico agrupar os potenciais riscos. É exatamente o que a Covax está fazendo”, diz o epidemiologista. Com recursos antecipados de dezenas de países, a aliança permite encurtar um caminho até a vacina que, em condições normais, dura de 7 a 20 anos.

Os pagamentos iniciais garantem a matéria-prima e o aumento da escala para fabricação ainda durante a fase de desenvolvimento, enquanto normalmente os investidores só bancam a produção quanto têm garantia de que se trata de um imunizante seguro e eficaz.

De acordo com Berkley, o portfólio da aliança tem hoje nove vacinas em desenvolvimento e outras nove em avaliação. Dos US$ 2,4 bilhões (R$ 13 bi) orçados para pesquisa e desenvolvimento, foi garantido até o momento US$ 1,3 bilhão (R$ 7 bi), pouco mais da metade.

“Esperamos resultados de eficácia no quarto trimestre deste ano e no primeiro trimestre de 2021”, diz ele.

Antes de começar a aplicar os imunizantes será preciso obter a aprovação de agências regulatórias, uma etapa que o Gavi também está tentando agilizar.

O objetivo inicial da Covax é produzir 2 bilhões de doses, número que leva em conta a necessidade de duas doses para a imunização. Esse número, suficiente para a vacinação considerada prioritária -profissionais de saúde e grupos de risco- poderia ser alcançado no final do próximo ano, segundo Berkley.

“Mas as vacinas serão distribuídas assim que se mostrarem eficazes e tiverem aprovação regulatória. Não vamos esperar até que todas as doses sejam produzidas”, diz ele.

Segundo Berkley, a OMS está definindo as regras sobre como priorizar a distribuição das vacinas enquanto a oferta for limitada. Esse é um ponto em que a aliança global também é necessária, afirma o epidemiologista, porque muitos dos países que têm capacidade de fabricar vacinas na escala necessária enfrentam pressão para imunizar primeiro sua própria população.

“Não houve até agora nenhum sistema global para supervisionar a alocação do suprimento de vacinas, e é preciso uma solução verdadeiramente global para encerrar o estágio agudo da pandemia”, afirma.

No primeiro momento, o foco será garantir o fornecimento de vacinas para 20% da população dos países participantes -até a última sexta (6), eles eram 186, dos quais 94 são economias de renda mais alta, capazes de financiar sozinhas as compras de suas doses.

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Os outros 92 são países que se candidataram a participar do Compromisso de Mercado Antecipado, AMC (Compromisso de Mercado Antecipado), que financia a compra por países de menor renda.

Quando todos os participantes tiverem recebido a cota de 20% (ou menos, se preferirem), novos pedidos passarão a ser atendidos. “Nada parecido com isso foi tentado antes em um período de tempo tão curto”, diz o executivo, que descreve a operação de “um imenso esforço de coordenação”.

Em anos normais, a estrutura do Gavi fornece cerca de 500 milhões de doses, um quarto do que será necessária apenas na primeira fase da vacinação contra o coronavírus.

Entre os preparativos necessários está garantir veículos refrigerados e câmaras frias para armazenamento dos bilhões de doses, além das estruturas de transporte. “Os países ricos e pobres são todos afetados e, portanto, as questões de preços, fabricação e abastecimento geral são muito mais complexas”, afirma ele.

Faltam recursos ainda para garantir a distribuição, afirma Berkley. Da meta urgente de US$ 2 bilhões até o final deste ano, necessários para acelerar a disponibilidade de doses para países de baixa e média renda, foi arrecadado US$ 1,8 bilhão (ou R$ 9,6 bi de um total necessário de R$ 10,7 bi).

Outros US$ 5 bilhões (R$ 26,7 bi) são necessários até o final de 2021, para garantir que países mais pobres não fiquem sem imunizante. “Se a maior parte do mundo continuar desprotegida, a pandemia seguirá inabalável, e seu impacto continuará significativo”, diz ele.

Embora a produção e a compra em escala possam garantir mais eficiência e preços menores, modelos como o do Gavi, justamente por envolver quantidades e somas bilionárias, podem propiciar desvios, desperdício e corrupção, segundo seus críticos.

Berkley afirma que, a partir de 2021, a aliança vai ampliar as atividades de auditoria e investigação para incorporar, “quando viável”, as operações centrais da Covax e a entrega da vacina contra Covid-19. “O Gavi tem tolerância zero para o uso indevido de fundos”, afirma ele.

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