BrasilDestaqueMundo

Com 21 galinhas e 1 Kombi velha, refugiado iraniano vira empresário bem-sucedido no oeste baiano

Andou por várias cidades – entre elas, Manaus e Porto Velho – até chegar em Gurupi, onde decidiu morar.

O refugiado iraniano Paknoosh Kharaghani chegou a Luís Eduardo Magalhães, no oeste baiano, com uma Kombi velha e 21 galinhas caipiras congeladas para recomeçar a vida após a falência de seu pequeno comércio de alimentos, em Gurupi (TO). Passados 19 anos, o homem que atravessou a pé e de carro 700 quilômetros de deserto, durante uma semana, para escapar da morte na guerra Irã-Iraque acumula um patrimônio de mais de R$ 15 milhões: um hotel 4 estrelas e um restaurante no centro do município movido pelo agronegócio.

Pak – como é mais conhecido – cruzou a divisa do Tocantins com a Bahia em 2000, ano em que Luís Eduardo Magalhães, então distrito de Mimoso de Oeste, emancipou-se de Barreiras. O refugiado da ONU enxergou no município recém-criado uma chance de crescer como comerciante para se recuperar do prejuízo sofrido em Gurupi, onde morou por quase 10 anos, casou-se com uma piauiense e teve duas filhas (uma delas morreu ainda criança, em TO).

“Em Gurupi, tive um trailer de lanches. Depois, um verdurão e açougue. Sem capital de giro, acabei falindo. Vendi a chacrinha que tínhamos para acertar as contas. Ficamos com 21 galinhas caipiras para recomeçar a vida. Um amigo me ofereceu a Kombi velha para pagar quando pudesse. Então, matamos as galinhas e congelamos. Colocamos o que havia sobrado na Kombi e viemos para Luís Eduardo Magalhães”, conta Pak, fala ainda carregada pelo sotaque da língua persa e gestos comedidos.

pak 2 refugiado iraniano
Refugiado atravessou deserto de 700 quilômetros para fugir do Irã – Foto: Elio Rizzo/AGROemDIA

Galinha cozida, buchada de bode e mocotó

Logo que chegou à cidade, hoje considerada a capital do agronegócio da região do Matopiba (MA, TO, PI e BA), Pak tratou de alugar uma casa e foi atrás dos vizinhos pedindo panelas e outros utensílios emprestados para cozinhar as galinhas. Com a mulher e a filha, à época com 5 anos, estacionou a Kombi perto do posto de combustíveis Mimoso, que deu origem ao município, para começar nova empreitada no Brasil, onde chegou em 1987 abrigado pela ONU em razão de perseguição religiosa.

“Fui com a mulher e a filha para o posto, de manhã bem cedo, vender galinha cozida em pedaços. Toda família junta dava mais energia. No primeiro dia, vendemos 18 porções a R$ 1 e R$ 2. Três dias depois, já não tinha mais galinhas e tive que sair pelas casas da cidade à procura de quem tivesse galinhas caipiras para repor a mercadoria. Em seguida, também começamos a oferecer buchada de bode e mocotó”, lembra Pak, seguidor da religião Fé Bahá’í*, alvo de intolerância no Irã, país de maioria islâmica.

Após um ano, Pak percebeu que era hora de ir para um local maior para atender melhor a clientela que havia conquistado. “Para atrair clientes, ia de cabine em cabine dos caminhões oferecendo comida para os motoristas”, recorda o iraniano, acrescentando que alugou, então, um lote em frente ao posto Mimoso, do outro lado da rua. “No dia em que abrimos, havia umas 200 pessoas esperando. Aquilo me deu uma força enorme. Não acreditava.”

No lote, o refugiado montou uma barraca com quatro mesas e uma cozinha. “Dava para receber 15 clientes [por vez].” Nos fundos do terreno, colocou um trailer para morar com a família. Mais tarde, construiu um galpão porque o movimento era grande. Em 2008, alugou um prédio de mil metros quadrados também ali perto. Surgia o restaurante e pizzaria Paknoosh, um dos pontos comerciais mais movimentados da cidade.

pak suites 0
Foto: Divulgação

Sonho de construir hotel na cidade

À época, Pak e a família já sonhavam em ter um hotel. “Havia comprado a prestação um lote próximo ao restaurante. Como indicava muitos hotéis para nossos fregueses, comecei a pensar em construir um, embora não conhecesse o ramo. Passei a fazer economia para pelo menos erguer os alicerces do prédio.” Porém, o capital ainda era insuficiente para construir o empreendimento.

Com apoio do Banco do Nordeste, ele conseguiu concretizar o sonho. Investimento de R$ 7 milhões, o Pak Suítes Hotel foi inaugurado há dois anos e meio e hoje já é avaliado em R$ 15 mi. O hotel tem seis andares, elevador, restaurante para café da manhã, 50 apartamentos com ar-condicionado, rede Wi-fi, frigobar e TV e estacionamento.

Agora o empresário projeta construir uma área de lazer e um restaurante panorâmico na cobertura, com dois telescópios para que os hóspedes possam ver os arredores de Luís Eduardo Magalhães e suas fazendas, onde são cultivados principalmente algodão, milho, soja e café, além de outros produtos agrícolas.

Aos 50 anos, o iraniano que virou empreendedor bem-sucedido no oeste baiano sabe que é exceção entre os milhares de refugiados que vêm para o Brasil. Por isso, enfatiza ser um empresário preocupado com o desenvolvimento socioeconômico da cidade. Hoje, ele tem 45 funcionários no hotel e no restaurante, contribuindo para geração de emprego e renda em Luís Eduardo Magalhães.

“Se ficasse lá, acabaria sendo convocado para o Exército e indo para a guerra. A chance de sobreviver era zero” – Paknoosh Kharaghani, refugiado iraniano

Fuga do Irã pelo deserto durante uma semana

A trajetória de Pak é marcada por adversidades. “Minha batalha começou na infância, sobrevivendo à guerra do Irã-Iraque. Morava numa cidadezinha a cerca de 30 quilômetros de Teerã. Quando acabou a adolescência, comecei a enfrentar dificuldades por ser bahá’í. Tive que sair de várias escolas e não tinha direito ao ensino superior.”

Ao completar 17 anos, Pak chegou à conclusão, em conversas com os pais, que o melhor era fugir do Irã. “Se ficasse lá, acabaria sendo convocado para o Exército e indo para a guerra. A chance de sobreviver era zero, porque as pessoas da minha religião iam direto para front justamente para que morressem”, afirma o iraniano, cuja família também deixou o país do Oriente Médio (os pais moram na Austrália).

A fuga do Irã para o Paquistão exigiu que Pak cruzasse um deserto de 700 quilômetros com um grupo de seis pessoas que jamais havia visto. “Não conhecia nenhuma delas e nunca tive notícias desse pessoal. Só fizemos a travessia juntos”, narra o refugiado. No Paquistão, ficou sob proteção da ONU e ganhou visto de permanência até decidir para onde iria em definitivo.

Optou pela Brasil. “Vim para cá, em 1987. Não tinha patrimônio algum, nem profissão e não sabia falar português.” Primeiro, trabalhou por um ano numa serralheria, em Mogi-Mirim (SP). Depois, empregou-se como auxiliar de eletricista numa fábrica de papelão, onde começou aprender o português.

“Aí, já conseguia respirar um pouco, apesar das muitas dificuldades, porque no Brasil só se ganha salário mínimo”, diz Pak. Passado algum tempo, resolveu prestar serviço por um ano para a Fé Bahá’í, divulgando a religião. Andou por várias cidades – entre elas, Manaus e Porto Velho – até chegar em Gurupi, onde decidiu morar.

Atualmente, além do sucesso nos negócios, Pak se orgulha de estar prestes a ver a filha, hoje com 24 anos, se formar em engenharia elétrica, em Palmas. Sempre atencioso, o iraniano é também uma das figuras mais conhecidas de Luís Eduardo Magalhães, cidade que é sinônimo de agronegócio de alta tecnologia e produtividade.

lem panoramica 10
Luís Eduardo Magalhães, capital do agronegócio do Matopiba – Elio Rizzo/AGROemDIA

Fonte: Agroemdia

Artigos relacionados

Sua opinião é muito relevante para nós do site Roagora

%d blogueiros gostam disto: